
Biografia
Macau, 1951 — Porto
Filho de uma jornalista e de um campeão de velocidade, conservador aos vinte e sete anos, autor das moedas, dos selos e das marcas de uma cidade, primeiro estilista de Macau, cronista durante vinte anos — e, sempre, um macaense a jogar aquilo a que chama o jogo do macaense.
Origens · 1925–1951
Uma fotografia, 1925
Existe uma fotografia do corpo docente do Liceu de Macau, tirada em 1925. Entre os homens sentados estão Camilo Pessanha, o poeta simbolista de Clepsidra, e Manuel da Silva Mendes, advogado, presidente do Leal Senado e um dos grandes primeiros coleccionadores de arte chinesa. Entre os seus alunos contavam-se um jovem atleta, António Maria da Conceição, que em 1928 e 1930 seria campeão nacional de estafetas de Portugal, e uma jovem, Deolinda do Carmo Salvado, que viria a ser a primeira mulher jornalista do território.
Deolinda — professora, escritora, autora de Cheong-Sam · A Cabaia, sobrevivente, com os seus dois filhos mais velhos, de um campo de internamento japonês em Hong Kong — foi, nas palavras do filho, “muito certamente a primeira mulher emancipada de Macau”, e a cidade castigou-a por isso. Os seus contos são quase todos sobre mulheres chinesas; ele acredita que ela os pôde escrever por ter sofrido o bastante para se abrir ao olhar do outro.
O filho de ambos, nascido em 1951 e baptizado com o nome do pai, tornar-se-ia em 1978 o primeiro conservador a tempo inteiro do museu erguido sobre a colecção de Silva Mendes. Três gerações atravessam uma única fotografia.
António Conceição Júnior · Sobre a mãe, 2024
Infância · 1951–1963
San Pat Kano, as novas oito casas
Nasceu a 6 de Dezembro de 1951 no Hospital de São Rafael — hoje Consulado de Portugal — e cresceu no Bairro Governador Albano de Oliveira, oito moradias para funcionários públicos a que os chineses chamavam San Pat Kano. Os seus pais foram os primeiros a habitar a deles; foi a última a ser demolida.
A mãe morreu em 1956, tinha ele cinco anos. Aluno interno do Colégio Dom Bosco, sportinguista nas cores do pai, rapaz fotografado no Nash paterno e ao lado do mestre de kung-fu Kwan Tak Hing, aos doze anos já tinha lido todos os Enid Blyton que havia em Macau e convenceu o pai a mandá-lo para um colégio em Portugal.
A viagem foi, ela própria, uma escola. No aeroporto de Rangum, o barman vestia um casaco de cerimónia sobre um sarongue: “a parte de cima era ocidental, mas depois havia o sarongue. Ali estava, a minha descoberta das diferenças.”
António Conceição Júnior · 2024
Lisboa e Macau · 1963–1977
A chapa, a prova e a tiragem
De regresso a Macau aos catorze anos, dirigiu, desenhou e escreveu uma página juvenil no Notícias de Macau, o jornal que os pais tinham ajudado a fazer; aos dezasseis, as suas caricaturas e pinturas a óleo encheram a primeira exposição individual. Em 1968 entrou na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, ao lado de Fernando Calhau e Julião Sarmento, e aprendeu gravura na cooperativa Gravura, com João Hogan.
O serviço militar levou-o de volta a casa em 1972. O exército cedeu-o ao Liceu como professor de desenho, e estava numa sala de aula na Praia Grande a 25 de Abril de 1974 quando dois oficiais entraram para anunciar que Portugal tinha mudado. Um deles, Garcia Leandro, viria mais tarde a chamá-lo, já como governador.
Pelo meio: a vida de jovem professor em Vila Franca de Xira, uma filha, Beatriz, e o romance gráfico Wong Fei Hong · O Vento de Shantung (1976) — uma China mais antiga, desenhada de memória e não de slogans, que o levou ao congresso de banda desenhada de Lucca e fixou a regra a que mais tarde chamaria o jogo do macaense.
António Conceição Júnior · 1998
O museu e a cidade · 1978–1991
A invenção de uma profissão
Em Janeiro de 1978, aos vinte e sete anos e candidato único, tornou-se conservador-director do Museu Luís de Camões e herdou uma colecção documentada em folhas de papel químico corrigidas à mão. Em dois anos fotografara todas as peças, restaurara o edifício com a Gulbenkian, abrira a primeira galeria de exposições temporárias de Macau e levara o território a Lisboa: a Quinzena de Macau de 1980 foi a primeira vez que a colónia se apresentou a Portugal como cultura e não como possessão.
Depois começaram os pedidos. Entre 1982 e 1998 o governo pediu a um só homem que desenhasse a sua moeda e a sua emissão base de selos; que criasse as marcas da sua campanha de limpeza, do seu hospital, do seu aeroporto e dos seus bancos; que fundasse a sua associação de designers, dirigisse o seu festival de artes, aconselhasse o seu governador e chefiasse o seu departamento cultural. Num território sem profissão de design, o único designer formado tornou-se a profissão. Nas palavras de Vítor Marreiros, escreveu, com a sua obra, o abecedário do design nesta cidade.
António Conceição Júnior · Sobre os anos de serviço público
Poder e autoridade · 1988–1999
O que não se construiu, e a transição
Em 1988 o Governador Carlos Melancia nomeou-o assessor cultural e pediu-lhe um Complexo Cultural: um museu, dois auditórios e uma escola de arte e design para toda a Ásia Oriental, assente em estacas sobre o porto exterior e financiado por um hotel e um centro de congressos, de modo a nada custar ao erário público. Em 1991 Melancia caiu; o projecto foi apelidado de megalómano e arquivado.
Uma década mais tarde construiu-se um Centro Cultural mais modesto, e ninguém sabia o que lá pôr. O presidente do Leal Senado levou-lhe as plantas a um chá, e ele dispôs a colecção encaixotada do Museu Luís de Camões a partir da memória que guardava do inventário de 1978. É esse o Museu de Arte de Macau. Em 1999 o seu desenho venceu o concurso para a medalha da Transferência de Soberania; a tiragem de dois mil exemplares foi cunhada e nunca distribuída. No mesmo ano recusou a Medalha de Mérito Cultural.
António Conceição Júnior · Sobre o Complexo Cultural, 1991
Aikido
O aikido, ou a ausência de inveja
Descreve o aikido não como uma arte marcial, mas como a disposição que subjaz a tudo: uma filosofia que reconhece o primado da natureza, praticada por um aikideshi que é sempre aluno e nunca mestre. Ao preparar o bailado O Som do Leque para o Festival de Artes de Macau de 1997, regressou ao tatami e descobriu que ele estivera por baixo de toda a sua obra — uma tranquilidade, uma ausência de competição, uma solidariedade para com os colegas.
É por isso que a polivalência nunca se tornou autopromoção, e que tanto do que fez permanece anónimo na cidade que ainda o usa. Nunca assinou a folha verde.
António Conceição Júnior · Sobre o aikido
Cidadão · 1998–2019
Um lugar de cidadania
Deixou o serviço público em 1998, fundou a ARS CIVES e começou a escrever semanalmente para a imprensa de língua portuguesa de Macau — Lugar de Cidadania, Entreposto, Conversas do Chá e do Café, Urbanidades. Para o Museu de Arte de Macau comissariou a primeira exposição alguma vez realizada sobre a história do aço na Ásia Oriental e trouxe do Louvre Platão em Terras de Confúcio; em memória do pai, reanimou e presidiu ao Sporting Clube de Macau.
Três livros reuniram as crónicas, cada um lançado duas vezes, em Macau e em Lisboa. Seguiram-se álbuns e exposições — Primum Lumen, Trânsitos, Territórios — e palestras sobre Silva Mendes, Afonso de Albuquerque e os macaenses.
António Conceição Júnior · Sobre Macau depois da transição, 1998
Porto · 2019–
A última oficina
Em 2019 mudou-se para o Porto, onde desenha, pinta e escreve num escritório a que chama a sua última oficina. Organiza os seus escritos, investiga a história de Macau, regressa ao retrato e, em 2026, tornou-se membro da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Foi filmado no Porto e em Macau para um documentário realizado pelo filho, António; está em preparação uma monografia da obra, em português, inglês e chinês tradicional.
António Conceição Júnior · 1997
Depoimentos
Maria de Jesus Barroso
Carlos Morais José
Pedro Tamen
Fernanda Dias
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